Na quarta-feira da semana passada, já com as passagens compradas de Brasília para SP para o show do AC/DC e do Mengão em Campinas, tentei, durante todo o dia, descolar um ingresso pela internet, no canal oficial de vendas da empresa que os comercializa, o tal Ingresso Fácil. Claro que não foi fácil. Aliás, não foi nada, já que o site estava intransitável. Além disto, há uma promoção do Itaucard, na qual o cliente paga meia na compra de ingressos para jogos de futebol, desde que pague com este cartão. O detalhe sórdido é que o único meio de pagamento possível era débito em conta do Itaú, banco do qual não sou correntista e nem me lembrava no momento de quem fosse. Tentei reclamar ou comprar pelo telefone, sem sucesso também. Tentei ligar dezenas de vezes e somente uma delas foi atendida. Sem solução. Pra concluir a primeira parte deste dia maldito: não consegui comprar ingressos, apesar das tentativas de um dia inteiro!
Claro, não podia deixar passar uma parada dessas em branco. Como é que os caras lançam uma promoção na qual você tem um benefício se se utilizar do produto deles como forma de pagamento se essa forma de pagamento não é disponibilizada pelo parceiro indicado? Como uma empresa como o Itaú associa seu nome ao de um serviço que simplesmente não funciona? Bom, no Brasil do panetone Arruda, dos descasos dos quais os consumidores vivem sendo vítimas e de empresas que só pensam no próprio nariz, isso não é de se estranhar. Mesmo assim, deixei uma reclamação formal relatando minhas agruras para NÃO conseguir um ingresso que estava disposto a pagar o preço cobrado inclusive no canal disponibilizado pelo site do Itaucard. Ah, não mencionei, mas sou cliente desta empresa há anos, apesar de não ser correntista. E esqueci o assunto.
Bom, a partir deste fato, as coisas começaram a querer mudar. Como é de conhecimento de todos, os ingressos para o jogo de amanhã pela última rodada do campeonato se esgotaram no dia em que foram colocados à venda. Estando longe do Rio, minha única chance era ter alguém que se dispusesse a enfrentar a fila mostro de cambistas nos pontos de venda do Rio para descolar uma entrada para o jogo. Única na minha opinião, porque ainda tinha o Ingresso Fácil, opção que nem sequer cogitei, em função do relatado acima. Bom, fiquei sem ter como entrar no Maraca e fazer parte daquilo que pode ser histórico para a Nação Rubro-Negra. Ainda assim, de passagens novamente compradas, tentei algumas alternativas de ir ao jogo. Ao Rio iria de qualquer forma. No entanto, as opções que restaram foram os cambistas e o preços absurdos impetrados pela mistura da lei da procura e oferta e da desorganização na venda dos bilhetes.
Foi quando uma moça de uma empresa ligada à promoção do Itaucard me ligou, tentando entender o ocorrido e o porquê da minha reclamação tão contundente. Não quero citar seu nome e nem o de sua empresa por razões óbvias: vai que vira moda… Ela vai ser tratada aqui na qualidade de anjo da guarda. Pois é, ela me ouviu, trocamos altas ideias acerca da situação, falei do absurdo de tudo isso, e não vou me alongar mais no relato do nosso telefonema de uns 45 minutos. E sem usar um único gerundismo, mesmo com um sotaquezinho paulista bonitinho bagarai! Por fim, sem prometer nada, mas de uma atitude profissional incrível, ela disse que ia tentar conseguir com uns contatos os 3 ingressos de que precisava (claro, não vou sozinho), mesmo sabendo que os ingressos haviam todos sido vendidos em horas. Se preocupou com todos os detalhes, com a chegada em minhas mãos e até com o fato de que, em um primeiro momento, não teria conseguido, infelizmente, as entradas. Não satisfeita, o anjo da guarda continuou tentando no dia seguinte, o que prova que ela não falou o que falou para me deixar tranquilo ou para jogar para a galera – no caso, eu. Não era nem mesmo um pedido de desculpas, como uma compensação por tudo o que passei naquela quarta-feira, dia 25/11/2009. No meu modo de ver as coisas, era mais uma preocupação com a pessoa de um cliente, com sua satisfação, com seu bem-estar.
Bom, na sexta-feira, quando vi o carro dos Correios dobrar a esquina da rua do meu prédio, tive uma certeza da qual duvidava até então: anjos existem!
Flamengo até morrer!
Saí de Brasília e enfrentei os quase 200 km que separam a Capital da cidade de Goiânia, que abrigaria o palco de mais uma apresentação do Mengão nesse Brasileirão esquisito. Estrada cheia, parada estratégica pra me abastecer do melhor da comida de beira de estrada: pastel e coxinha de galinha. A lanchonete já mostrava o que viria multiplicado por 1 mil a seguir. Dezenas de rubro-negros com a mesma idéia na cabeça e a mesma vontade de ver o seu time do coração em campo, no lugar mais próximo de sua casa que este campeonato permite. O jogo contra o Goiás em Goiânia é um acontecimento na vida dos candangos flamengos. Na estrada, dezenas de carros com bandeiras tremulando, adesivos do escudo mais lindo do mundo e ocupantes muito bem paramentados. Nos arredores do Serra Dourada já se podia ter uma idéia da divisão latifundiária das arquibandas. Meio a meio, talvez. Um cerveja (estava dirigindo), um churrasquinho, tão maroto quanto suspeito e o êxtase de estar a minutos de uma das maiores emoções da vida de quem gosta de futebol e ama o Flamengo. A organização do jogo, não sei se a mando (provavelmente) da diretoria do pequeno esmeraldino sem tradição e sem título, ou por obra deles mesmos, já que alguns membros do staff estavam vestidos com aquela coisa verde horrorosa destoou. Se tratar a torcida adversária daquele jeito, impedindo-a de entrar no estádio (no estádio, nas arquibancadas a história seria outra, bem pior) é sinal de organização e estrutura, prefiro mil vezes a bagunça da Gávea. Até cavalo da polícia montada tive que empurrar para que as crianças ao redor, em especial o Bruninho, sobrinho do goiano e rubro-negro (chupa, seu babaca Hélio dos Anjos) Rodrigo, amigo de longa data, não fossem pisoteadas. Dentro, impossível o acesso ao anel reservado para a Magnética. Não fosse o bom senso, ainda que tardio, dos policiais que faziam o isolamento entre os bem vestidos e os mal em diminuir a faixa que os separava e eu não teria visto o jogo. Dentro, e confortavelmente instalado, a força e o tamanho da maior torcida do mundo, ainda que meio tímida e desanimada, era algo de emocionar. Durante o jogo, seria melhor ainda. Esse era o cenário. Triste seria o seu fim.
Um time que perde 4 em 11 jogos não merece chegar a lugar algum em nenhum campeonato. O Flamengo jogou 37 partidas este ano e tem um aproveitamento de 61%. Isto é absolutamente ridículo. Como de resto foi a apresentação diante do Palmeiras e meia dúzia de gatos pingados no Maraca. Eu disse no Maraca, maluco! O Flamengo perdeu para o (bom) Palmeiras-sem-técnico em casa. E sem torcida. A atuação foi pífia. Claro, com Everton Silva péssimo, Léo Moura bisonho na meia e infeliz na ala, Everton tonto, Adriano mal e zaga medíocre, o resultado foi até camarada pra gente. E ainda parece que tá faltando vontade, motivação. Ah, não vou mais falar desse jogo. Página virada, vida que segue, a fila anda.
A seguir, a 3ª parte do nosso especial sobre torcida de futebol:
Em continuação à série Maior do Mundo, pergunto: o que leva alguém a torcer para um time de futebol? Vamos tentar responder nas próximas linhas…
É mitológico. É lúdico. É acima do bem e do mal. Da Zona Sul ou da periferia. Da vitória ou da derrota. Do título ou do rebaixamento. O Flamengo tem, há décadas, talvez desde sempre, a maior torcida de futebol do Brasil. A primeira pesquisa sobre o assunto que se tem conhecimento é de 1983. Neste, e em todos os anos subseqüentes, o Mengão obteve a primeira colocação em quantidade de torcedores, com o Corinthians sempre em 2º e Vasco, São Paulo e Palmeiras se alternando na 3ª colocação. Em números absolutos, talvez, seja a maior do mundo. Segundo as pesquisas, 18% da população brasileira se declara flamenga. São 35 milhões de pessoas. Isso dá 3 Portugal, meia Itália ou meia França. Não é à toa que a Magnética é chamada de Nação Rubro-Negra.
Outro dia, numa discussão acirrada regada a pastel engordurado e cerveja gelada, na companhia de bons amigos, que só não são melhores pelo péssimo gosto por futebol, já que não são flamengos, me deparei com uma situação tão inadimissível quanto improvável: meus amigos florminenses teimaram em afirmar que a torcida do Flamengo está perdendo espaço frente outras cujos times vêm conquistando campeonatos importantes. O frangueirão maior afirmou no Esporte Espetacular que a torcida do São Paulo é a que mais cresce em função dos títulos recentes conquistados pelo clube. E, pasme, um amigo, em férias nos Lençóis Maranhenses, no maior exemplo de ver o que que se quer ver sobre o assunto, disse que só se via camisas dos clubes de São Paulo no paraíso nordestino. Bom, isso tudo me motivou a lançar mais um tema para discussão aqui no site. De tempos em tempos vou publicar textos sobre o tema, tentando embasá-los com dados mas, principalmente, com idéias imparciais e racionais. Estou trabalhando no primeiro, para a semana que vem. O título da nova coluna, provisoriamente, é Maior do Mundo.